VALIE EXPORT _ Fotoperformance

VALIE EXPORT. Body Configurations, 1972-78. Fotoperformance

VALIE-EXPORT-body-configurations-performance-deni-corsino-imagens-domusImagens: DomusWeb

Este post é uma cópia do capítulo 2.2 (p.31-33) do meu TCC.

VALIE EXPORT:
O corpo é objeto central em sua obra

O ato performativo como experimentação que tangencia questões políticas tem seu auge na década de setenta. Neste período a austríaca VALIE EXPORT torna-se um expoente da Performance. Em sua série fotográfica intitulada Body Configurations (1972-78), VALIE EXPORT “contorna-se e acomoda-se a elementos da cena urbana e seu corpo torna-se parte desta.” [1] Os arranjamentos corporais não apenas revelam expressões de seu estado interior, mas discutem formas de manipulação. A artista parte do princípio de que tudo é resultado de uma construção, seja o corpo, a natureza, a arquitetura, sejam os próprios mecanismos de poder, envolvendo, assim, a possibilidade de manipular e controlar o tempo. A proposição da artista considera “a infraestrutura das cidades como influenciadora direta sobre como nossos corpos alterando a forma como nos vemos e nos relacionamos com o meio urbano.”[2]. Nesta série performática “as linhas e formas geométricas acentuam a imposição, às vezes violenta, da arquitetura sobre o corpo” e ilustram também “a reação ao controle imposto pelo sistema de comunicação.” A crítica poética de VALIE EXPORT tenta criar um ponto de tensão no confronto desta interferência sobre o sujeito urbano, propondo-o como uma extensão do meio.

Em Body Configurations, VALIE EXPORT coloca-se no espaço urbano experimentado-o através de seu corpo. A cidade está vazia aumentando o foco sobre este único sujeito. Nesta série é dada importância à limpeza estética e formal na composição de cada imagem, o que me remete a um diálogo direto entre VALIE EXPORT e o espaço. Há valorização da individualidade, seja do ambiente, seja do artista, de forma a questionar como corporalidades tão diferentes – a cidade e o corpo humano, coexistem. As linhas orgânicas do corpo experimentam integrar-se à dureza da cidade pelo contato, pelo movimento gestual que mimetiza, que se adapta, que cria uma interferência na paisagem urbana. A artista busca proporções e ângulos entre as suas medidas e aquelas da cidade. VALIE EXPORT explora formas de usar, de estar, de habitar este espaço. O nome da obra, que leva consigo o conceito de configuração e nos desloca às noções formais de uma certa disposição, arranjamento, informações pré-estabelecidas supõe a configuração pré definida da malha urbana em conversa com a configuração do corpo. Pensada por outro lado, contém em si a ideia de corpo construído e posto em cena por sua vez também construída. A configuração para este corpo compõe com a forma do espaço urbano explorando os vazios, as ausências, os volumes. Bem como explora as superfícies de contato onde cada movimento toca ou afasta-se da superfície do concreto; e materialidades colocam-se em contato por intermédio de uma pequena área ou, por quase uma área total, como se pode ver nas imagens acima. O corpo da artista ajusta-se ao mobiliário e a elementos urbanos valorizando a horizontalidade temporária e contrapondo a postura usual do corpo ao ficar de pé. VALIE EXPORT utiliza-se de linhas e figuras geométricas para dar visibilidade a estados de ser e aos limites imaginários atuantes sobre si mesma. Que espaço é esse do corpo, até quanto ele pode se estender, para onde, porquê? Linhas que designam seu contato com o outro que, imaginariamente, criam desenhos entre a sua forma e aquela da cidade criando conexões e perspectivas existentes, culturalmente, no nosso olhar ao construir uma cena. A imagem abaixo levanta ainda questionamentos pois não deixa claro se a linha vermelha pintada é parte do próprio piso ou se foi realizada uma intervenção no local ou até na própria foto. Esta superfície vermelha convida meu olhar a percorrer o espaço da cena, coloca o sujeito em primeiro plano e a cidade da faixa vermelha em segundo plano porém não menos importante. A faixa vermelha se faz presente, saltando aos olhos, lutando por espaço físico e pela nossa atenção, sugerindo narrativa, criando profundidade, mostrando as camadas da composição urbana. Espessa, a linha vermelha da cena está próxima ao corpo. É uma criação assim como o próprio corpo o é. Estampas ou acessórios foram evitados a fim que nada desviasse a ênfase à presença do performer, sem sobressair identidade ou estereótipos. Esta obra parece não levantar bandeiras, por exemplo, relacionadas ao feminismo, tema que esteve muito presente nas discussões de VALIE EXPORT durante sua trajetória. Cria-se, desta forma, neutralidade para um corpo dotado de organicidade particular, elástico, maleável, plástico. Por vezes, buscando contraste frente aos ângulos retos de esquinas, a artista reforça grafismos retangulares e triangulares formados por linhas de diferentes espessuras nas cores preto e vermelho com diferentes pesos. A artista não encara a câmera, fechando seu olhar em si mesma, disciplinando cada gesto de interação com a cidade de forma concentrada. Sua permanência tem relação direta com o espaço temporal criando variações de gestos e posturas ao longo da série. Nem sempre o corpo e os elementos da cidade encontram possibilidade de encaixes, mas se desencaixam, enriquecendo as variações de relação com este espaço.

[Leitura de imagem por DeniCorsino]

[1] Entrevista com VALIE EXPORT para Interview Magazine. Tradução livre da autora DeniCorsino.

[2] Where the streets have no name. Thiago Carrapatoso. Tradução livre da autora DeniCorsino.

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OUTROS ARTISTAS QUE REFERENCIAM O TRABALHO DE VALIE EXPORT

Carey Young. Body Techniques, 2007. Fotoperformance

 

Carey-Young-Body-techniques-tate-museum-2007.jpgImagem: Tate.org.uk

 

Em 2007 a artista Carey Young desenvolveu a série fotográfica ‘Body Techniques (after Encirclement, Valie Export, 1976)’  quando fez parte do programa de residência da Bienal de Sharjah (promovido por London College of Communication & Paula Cooper Gallery, New York). Ela dá ênfase ao rápido crescimento das cidades a UAE, estimuladas pelo mercado corporativo. Suas imagens, releituras das obras de artistas da década de setenta, como Valie Export, Richard Long, Bruce Nauman e Dennis Oppenheim, mostram a ausência do homem, e do artista, neste espaço, fato impactado pelo capitalismo global. Fonte Tate Museum Online

 

Carey-Young-Body-Technique-Valie-Expor.jpgImagem: disponível no site da artista Carey Young