Diário de Estágio

 

O Diário de Estágio é um exercício de problematização proposto pelo Prof. Dr. Cristian Mossi (UFRGS, 2017) durante a cadeira de Estágio I e II. Segue portanto o meu processo de criação deste diário que se dá em 3 etapas durante os dois semestres de 2017.

Este conteúdo ganhou um capítulo dentro do meu 
TCC "Artista-Docente: Transcriação de relações corpo-cotidiano 
no Ensino de Artes Visuais".
 Baixe-o no LUME para ler a reflexão na íntegra.

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DeniCorsino, Ação “O que estamos fazendo aqui?” [Dez 2017]

O fazer constante está presente no meu trabalho. Insiro a discussão da minha produção de trabalhos poéticos como Faixa-corpo dentro do Projeto de Ensino, transcriando minhas práticas. Os alunos passam a apropriar-se dos objetos que carrego para as aulas para então produzir novos trabalhos. Destes me aproprio para construir outros trabalhos. Ao compartilhar os novos resultados com os discentes, estes se apropriam do mesmo no intuito de usá-los no seu processo de criação de ainda um novo trabalho. A partir do que foi gerado, me inspiro para criar outro trabalho poético que, por fim, reflexiona questões envolvidas neste processo. Este percurso está focado no “fazer” e mantém-se em transformação contínua. Falo de um processo performativo no qual o “durante” ganha importância.

Assim a última ação do semestre realizada como Diário de Estágio é resultado da apropriação de elementos previamente usados em aula como os papéis e a fita amarelo-preto, somam-se a percepções do contexto que passou a ser parte do meu cotidiano e, conecta questões discutidas no meu TCC.

Tendo em vista que o Projeto de Ensino que desenvolvi, e apliquei  no estágio docente junto ao Colégio de Aplicação CAp UFRGS, intitulado Experimentações no Ensino de Artes Visuais a partir das relações corpo – espaço do cotidiano, esteve voltado para experimentações corpo-espaço buscando sempre interações em que os alunos fossem protagonistas, eu quis envolver  o público (colegas de aula) nesta ação fazendo uma intervenção no nosso próprio espaço de sala de aula usando os objetos alí presentes. Desta forma, afastei todas as mesas em sala de aula, desenrolei a minha faixa de segurança individual (Faixa-corpo), criei uma área de contenção com fita amarelo-preto usando as cadeiras da sala para fechar esta área. Posicionei-me na porta dando instruções a cada um que entrava. Eles escolhiam uma das 9 perguntas disponibilizadas. No meio da área de contenção havia uma classe e em cima um vidro com “respostas prontas” e um com “produção de respostas” a partir do qual poderiam escolher uma folha e produzir as suas respostas. Enquanto eu aguardava que chegassem, eu continuava produzindo respostas e colocando-as no vidro. As respostas prontas, em forma de barco, são inspiradas na resposta que uma aluna do oitavo ano deu a um dos exercícios práticos. É um elemento para pensar as possibilidades de criação. Se eu tivesse obrigado os alunos, naquela atividade, a fazer um comentário por escrito padronizado sobre suas percepções do exercício, não teria tantas respostas criativas para um exercício focado na experiência e no fazer. Os papéis usados para a ação foram os mesmos papéis usados na fotoperformance, os quais foram amassados pelos alunos na atividade de Tarefas inspiradas no trabalho da artista Anna Halprin.

Usei o som da sirene como meio de pensar também os ruídos do cotidiano escolar e como limite ou imposição do dia a dia. Os sons tornaram-se conteúdo para um dos trabalhos de grupos no estágio, após as experimentações multisensoriais.

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Imagens de registro do material usado na ação

O que estamos fazendo aqui. Registros: DeniCorsino

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As frases escolhidas para este terceiro momento do Diário são:

-Porquê folha quadriculada pra mim?  – Qual vai ser o trabalho final?

Nota-se o condicionamento dos alunos ao realizar uma tarefa na qual todos partem de ferramentas iguais e tomam o mesmo caminho para chegar a um “trabalho final.” Na primeira situação, após iniciar a tarefa, o aluno compreendeu que o trabalho estava na ação e não nas linhas do papel. E sobre o trabalho final, ao longo das aulas foram compreendendo exatamente do que se tratava o processo de criação tratado no trimestre.

Corpos dóceis também criam? Esta questão diz respeito à noção de corpo dócil de Foucault abordado no meu TCC e tornou-se um capítulo do mesmo, a qual considero importante uma vez que penso os limites e condicionamentos envolvidos no cotidiano do docente e dos discentes.

-Posso ir ao banheiro? Posso terminar em casa? Posso sair mais cedo? Vou identificando algumas estratégias dos alunos para não fazer o trabalho ou demorar mais na “Operação Tartagura.”

-Porquê? No exercício de sondagem um dos alunos ao invés de desenhar ou fazer colagens sobre si mesmo, trabalhou sua expressão através da escrita aonde ele dizia: “Sempre pergunto porquê?” E assim vou me perguntando o porquê a cada passo dado dentro do estágio.

-É para colocar nome? Esta é uma das questões simples do dia a dia que podem abarcar um mundo. A partir desta questão pude introduzir a questão da autoria na arte, por exemplo.

-O que é arte e quando é arte? Questão trabalhada na universidade mas que começou a ser questionada pelos discentes ao entrar em contato com as linguagens da arte contemporânea. O estranhamento inicial se fez produtivo para que houvesse uma certa curiosidade e interesse na participação ativa durante as aulas.

-Como diminuir a distância entre quem ensina e quem aprende? Essa é uma pergunta colocada por Gilberto Icle em um dos seus artigos que lí para o TCC e que, permeia o meu trabalho, pois sem respostas prontas, termino este semestre. Durante a ação eu usei o crachá de estagiária UFRGS indicando hierarquias e poder. Essa primeira identificação indica quem está no lugar de professor é obrigatória durante o trabalho.

Arte pra quê? Esta é uma pergunta lançada por Katia Canton. Na última aula do Estágio II eu trouxe para a escola o seguinte trecho para pensar o que estávamos fazendo naquele trimestre. É na realidade válido para todos nós artistas-educadores, bem como para esta ação do Diário “O que estamos fazendo aqui?

Arte pra quê? por Katia Canton

É certo que a arte possui um fundamental viés subjetivo. E o contato com uma obra ou objeto artístico provoca, instiga, estimula nossos sentidos, de forma a retirá-los de uma ordem pré-estabelecida, sugerindo novas e expandidas possibilidades de viver e de se organizar no mundo.

A arte ensina a desaprender os princípios das obviedades que são atribuídas aos objetos, às coisas. Ela nos expande e parece detonar a mola propulsora do funcionamento das coisas da vida, desafiando-as.

A arte expõe as contradições, os impasses, as sutilezas e as subjetividades que cada coisa do mundo abraça em sua própria existência.

Ela também pede atenção para as particularidades formais – cores, contornos, luzes, texturas, massas, dimensões e ainda no âmbito da arte contemporânea, os cheiros, os ritmos, o tato – assim como para os conceitos, as ideias, as emoções e os sentidos de suas construções. Ela pede um olhar curioso, livre de pré-conceitos, mas repleta de atenção.

Arte é também índice cultural, que conta história do nosso contexto e nossa condição humana no mundo. Arte forma seres humanos mais capacitados para a vida e seus percursos.

*Trechos extraídos do artigo “Arte para quê? As narrativas enviesadas  do contemporâneo” de Katia Canton. Em “Espaço da mediação”, p.91-98 – ano 2001.

Assim, a ação “O que estamos fazendo aqui?” carrega a ideia de continuidade, de um fazer que se desenrola, que acontece, que se transforma, e que levanta questionamentos como algo provocador sem respostas prontas.

Ao longo das aulas fui reunindo diversos elementos para pensar um trabalho efêmero, que não representasse um trabalho final, um objeto físico: a ação me pareceu mais apropriada. Assim como no meu Projeto de Ensino era previsto que os alunos levassem consigo as experiências e muito pouco em objetos criados. Não tenho registros da ação, porém ela abriu espaço para outras vivências. Pois logo em seguida o espaço criado passou a ser usado para a apresentação dos trabalhos seguintes e, assim tivemos uma aula distante dos “corpos sentados na cadeira encaixados na mesa”. A própria proposta de ação que intervém no espaço da sala traz um pouco do que realizei como prática durante o estágio onde propus a modificação da sala durante as aulas e uso dos diversos espaços dentro da escola. E então nesta ação realizada, criamos ou outro espaço contido dentro da própria sala. A contenção entrou no sentido de contido e de limitar um espraiamento dos sujeitos o que dá a ver o funcionamento de um sistema escolar limitante cheio de regras, aonde há escolhas porém com pouca folga. A contenção era dada também pelos participantes que eram amarrados de dois em dois com a fita amarelo-preto. Seguem as imagens da aula que aconteceu após a minha ação:

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Algumas referências foram atravessando minhas ideias e brainstorm até que a ação se concretizasse. Ao pesquisar referências para as aulas do estágio, encontrei as obras do artista paulista Shima (1978) do qual extraio o termo “contenção” usados na minha ação. E a ação coletiva A’CORDA de Paola Zordan, a qual usou cordas para amarrar pessoas ao monumento expedicionário na Redenção em Porto Alegre tratando assim dos “laços entre pessoas e o Estado que as abriga.” Não somente para este trabalho mas para os outros e para as aulas uso o a técnica de brainstorm para jogar a ideias no papel e não perder nada, desenvolver algumas, jogar outras fora…e assim vou construindo a ação a ser realizada sem roteiro fechado permitindo que algumas coisas sejam decididas conforme local e desenrolar da proposta, o que remete ao próprio trabalho do artista e ao trabalho do docente.

 

 

Shima, Zona de conforto/zona de confronto, performance, 2009. Nesta mesma série Shima também criou uma instalação chamada Contenção em 2007.

 

Etapa anterior – apresentação 2 do Diário de Estágio:

 

fotoperformance-2-pb.jpgDeniCorsino, Transcriando escolhas, fotoperformance, Out 2017

A fotoperformance Transcriando escolhas foi incialmente apresentada em 9 imagens coloridas, impressas e suspensas na parede da sala, sem título. No final do semestre dei nova disposição para as imagens selecionando apenas 6 delas e apresentando aqui em preto e branco com novo título. Esta fotoperformance é resultado do processo que cria, recria, apropria, reflete, espelha experiências e tenta, por fim, ‘desfazer’ o nó de questões do próprio percurso empreendido na produção de TCC e no Projeto de Ensino. Enquanto que, previamente à aplicação do Projeto de Ensino, criei um áudio para funcionar com uma instalação sonora com 2’10”que reúne toda minha expectativa diante deste nó. Num exaustivo planejamento ao qual me deparo com a quantidade de responsabilidades que deveriam ser consideradas neste plano crio então uma lista que é ditada ao longo destes dois minutos. Meu grande dilema era conseguir entender como todos estes verbos se tornariam realidade e se eu conseguiria dar conta de tudo isso:

Experimentar proporcionar estimular ensinar conhecer incentivar adaptar mapear redimensionar refletir avaliar propor possibilitar mediar permitir gerar disparar produzir apropriar  transpor dedicar elaborar transformar compartilhar conceber ler afetar humanizar educar ampliar implicar desdobrar constituir cultivar criar inventar inventariar direcionar perceber tocar escutar estressar deslocar provocar performar atualizar o cotidiano a arte eu você o corpo qualquer corpo a instituição o professor nós o aluno o artista o processo a criação a criatividade a invenção a experiência a inclusão a normatização o diálogo a incerteza a possibilidade  os conceitos os caminhos a linguagem a cultura a imagem o contemporâneo o mundo a leitura de mundo a escola as aulas as aula experimentais as aulas reais as aulas da vida os valores as dimensões as soluções as escolhas a improvisação as estratégias as tarefas os limites o poder o controle as subjetividades o potencial a aprendizagem a metodologia a originalidade o estranhamento o inacabado o currículo a sala de aula são coisas que inquietam que por mim passam ficam se vão estão suspensas às vezes densas às vezes não estão.  [12 Jul 2017]

Ao final do Estágio, os verbos que realmente marcaram meu percurso poderiam ser resumidos em: fazer, escolher, perceber, oportunizar e transcriar.

Para a realização da fotoperfomance uso as seguintes referências:

nóe eu-elaine-tedescoElaine Tedesco, Retrato com Nó, fotoperformance, 2006.

143-halprin-DEFILE.jpgAnna Halprin e a noção de Tarefas (task). Desfile e trocas de roupas, performance,1964.

 

Já na etapa de apresentação 1 do Diário de Estágio partí com o lançamento de ideias que buscavam  trabalhar Arte Postal e apresentei um brainstorm inicial. Tentava conectar Arte Postal e performance ou atitude de performance. Logo na segunda etapa abandonei a ideia pois percebi que meu projeto era muito mais voltado para as experimentações do corpo no espaço e a experiência em si do que para a produção de um objeto tridimensional como trabalho final.

Minha pesquisa inicial incluiu:

-Sophie Calle – “fora” por email > Prenez soin de Vous  (Cuide de Você) – Bienal de Veneza, 2007

– Texto sobre a proposta > http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,carta-de-ex-namorado-motiva-exposicao-de-sophie-calle-em-sp,400772

– Video da expo  2014> https://youtu.be/34VW6HoO5y4

– Entrevista > https://youtu.be/wq15WrJaauE

-Bienal 2013 – cartas de amona garrafa

-Joseph Beuys – Postcard – Joseph Beuys, Holzpostkarte, 1974 \ Joseph Beuys, Filtzpostkarte, 1985

-Link para imagem > https://www.pinterest.com/pin/100979216627595570/

Screen shot 2017-06-15 at 6.03.09 PM.png

http://www.newarteditions.com/joseph-beuys-2-postcards-wood-felt-edition-staeck/

http://www.newarteditions.com/joseph-beuys-2-postcards-wood-felt-edition-staeck/joseph_beuys_wooden_postcard/

https://www.thearchiveislimited.com/10858-2/

-1962 Marco da arte postal \ dadaísmo, futurismo, Bauhaus, surrealismo >  propunham uma ruptura com a tradição artística  \ meio postal para divulgação de idéias.

– Mail art > uso de xerox

– Itália e Suécia > museus de arte postal

-Arte Postal para veicular infos \protesto\denúncia

-Expressão livre – suportes

-Arte conceitual- Arte postal

 

O Diário de Estágio deveria incluir as seguintes diretrizes:

  1. Estagiário – o que posso aprender com as experiências para minha docência?
  2. Dilemas – aspectos pra se preocupar, refletir
  3. Escola – fala, imagens, ressonância dos colaborados
  4. Aulas universidade – respaldo para minha atuação no estágio

 

O que se traduziu neste primeiro momento /etapa 1 da seguinte forma:

Ideia inicial > Arte postal + performance

– como transformar toda a informação recebida (selecionar infos, frases que mais tocaram) em objeto ou performance  (foco no corpo) ?

>o corpo > experiência absorvida

– é possível conectar as duas? > processo presente na performance também

> cartas > objeto – de arte \ como ? pensar sobre > fala, pós\pré > processo > objeto final > ou o mesmo processo vai gerar objeto ?

– quem está envolvido > objeto – o que, pra quem?

– instruções

1 ESTAGIÁRIO

– sistema: instituição x possibilidades. – O que está entre o que nos é dado e as possibilidades que temos de melhorar, mudar, subverter o sistema em prol da arte educação?

2 DILEMAS

– não estamos aqui para salvar

– como se aprende a ser professor  (ver texto semestre passado)

– poder ( texto Julio Groppa – autoridade docente)

3 ESCOLA

4 AULAS UNIVERSIDADE

– “experiência é o que me passa“ Larossa

 

 [DeniCorsino]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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