Processo

// O meu Trabalho de Conclusão de Curso TCC Artista-Docente: Transcriação de relações corpo-cotidiano no Ensino de Artes Visuais começou a ganhar forma com as seguintes INSTRUÇÕES dadas pela minha orientadora Elaine Tedesco:

  Atividade 1 _ Maio 2017

  1. Organizar o material produzido nas férias. – apresentação.
  2. Escolher apenas 01 trabalho do ano passado que serviu de inspiração para este atual.
  3. Pensar sobre quais procedimentos foram usados. Metodologia.
  4. Como surgiu a ideia, o impulso, o que aconteceu para que o trabalho se desse, força motriz.
  5. Fazer um exercício descritivo do trabalho atual, o que ele é, não o processo.
  6. Afinidades eletivas > quem são os 03 artistas com os quais se pode relacionar o trabalho (proximidade, semelhança ou diferença). Apenas 1 trabalho de 1 artista.
  7. Escolher 1 dos 3 trabalhos do artista para fazer a leitura da obra. (esboço, livre)

Meu trabalho, desta forma, tem como ponto de partida a interação do corpo com o espaço urbano através de objetos mediadores.


 

// A proposição anterior (2016) ao TCC que me inspirou para “continuidades” ganhou um capítulo no meu TCC final:

O trabalho “Cadeira (c)ativa” funcionou de inspiração para o meu trabalho atual “Lugares de Estar”. Cadeira (c)ativa é o trabalho mais recente em que penso as relações do meu corpo e o espaço urbano.

 

O QUE: Dispositivo espiatório Cadeira (c)ativa para a intervenção urbana coletiva Espiação (Coletivo OM-LAB), Porto Alegre- Brasil, SET 2016.  ::  [ fotografia à esquerda: Bruna Gazzi / fotografia à direita: DeniCorsino ]

Uma cadeira proposta como dispositivo, seja ele, espiatório ou contemplativo, não importa o objetivo de cada um pois o primeiro acaba inevitavelmente levando ao segundo. Ela, a cadeira, acomoda o corpo, os quadris, apoia os braços, mas também auxilia o sujeito munido de objetivos ou despretensioso quanto a que olhar buscar. É este corpo que percebe, que experiencia a subida e a descida da cadeira ou a sua estadia, que com seu movimento alça-se para além do muro. Um espaço individual, o trono que monopoliza a vista descoberta e guarda a experiência do sujeito autoridade por alguns minutos. O dispositivo que criei é confortável, é um ponto de acesso que ‘ativa’ experiências sensoriais por si só provocando curiosidade até mesmo em quem não esteve presente na ação.

// Experimento então um exercício descritivo acerca do trabalho em desenvolvimento:

–AÇÕES: O que é o trabalho?

Lanço a proposta Lugares de Estar para a qual crio objetos que mediam a interação do meu corpo com a cidade permitindo um presença efêmera, temporária de ocupação e de permanência no espaço urbano das grandes perimetrais e avenidas, aquelas que representam a cidade do agora e do futuro.

Em Lugares de Estar: Faixa-Corpo e Encaixamentos levanto duas possibilidades para a presença do corpo na urbe como seguem:

 

_fotografia_divulgação PMPA\EPTC

LUGARES DE ESTAR: Faixa-Corpo

A performance faixa-corpo é uma forma de levantar um olhar crítico para a cidade contemporânea: a cidade feita para carros e para grandes prédios e que não abre espaço para a permanência do sujeito. Ao deslocar-me com a minha própria faixa dou-me a possibilidade de escolher meu trajeto, e ainda de permanecer, habitar, estar presente, ocupar o espaço urbano. As grandes cidades não tem espaço para que o sujeito possa ‘estar’ na cidade, forçando-o a manter contínuo deslocamento.

AÇÃO 1 – Performance realizada em 19 março 2017 na Av. Carlos Gomes (3º Perimetral), Porto Alegre, Brasil,  Av. Carlos Gomes   ::    fotografia_Aline Souza

 

3-Lugares-de-estar-FAIXA-CORPO-por-DeniCorsino_fotografia-Aline-Souza-divulgacao-Insta

 DIVULGAÇÃO \\ _ layout_DeniCorsino | fotografia_Aline Corsino

AÇÃO 2 – Performance realizada em 25 março 2017 na Av. Edvaldo Pereira Paiva, Porto Alegre, Brasil. Evento Obras de Arte na Via \ EPTC-PMPA \ Semana de Porto Alegre.  \\  fotografia_Aline Corsino

 

 

 LUGARES DE ESTAR: Encaixamentos

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Fotoperformance realizada em 08/julho/2017 na Av. Carlos Gomes (3º Perimetral), Porto Alegre, Brasil. Fotografia: Flávia de Quadros

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Fotoperformance realizada em 19 março 2017 na Av. Carlos Gomes (3º Perimetral), Porto Alegre, Brasil. Fotografia: Aline Corsino

Na fotoperformance Encaixamentos crio enquadramentos ou propriamente encaixes a partir de objetos que apoiam meu corpo e que visam a permanência e interação com a cidade.

Esta proposição é uma experimentação importante dentro do meu processo criativo porém não pôde ser aprofundada neste TCC, mas que se abre a futuras possibilidades de desdobramentos e pesquisa enquanto relações corpo-cotidiano-espaço e objetos mediadores.

 

// A pesquisa do TCC se aprofunda com exercícios de leitura de imagem. Escolhi 03 artistas com os quais se pode relacionar o meu trabalho a partir de afinidades eletivas:

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Jorge Soledar. Projeto Arquitetônico Particular, 2005. Fotografia.

Jorge Soledar (1979) trabalha com o corpo, o espaço, os objetos cotidianos e suas relações. Utiliza-se das performance, fotografia, escultura e intervenção urbana para compor suas propostas. \\ Pensa o corpo em relação ao objeto do cotidiano, composições x objeto único, o corpo do artista como medida ou como protagonista, enfim levanta questionamentos a respeito das relações do corpo. Tem uma ligação forte com a arquitetura.

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Francis Alys. Zapatos magnéticos. Havana, 1994. Performance.

Francis Alys (1959)  – Mi obra es una sucesión de notas y de guías. La invención de un lenguaje va pareja a la invención de una ciudad. Cada una de mis intervenciones es otro fragmento de la historia que estoy inventando, de la ciudad que estoy componiendo.”

Suas performances têm pontos de encontro com as derivas. É um modo de utilizar artisticamente o espaço urbano e resgatar situações cotidianas. Na performance Zapatos Magnéticos, 1994 o artista realiza um passeio por Havana usando sapatos especialmente fabricados com sola magnética. Todos os objetos metálicos que grudaram foram posteriormente usados para criar uma colagem de lembranças da cidade exposto então numa galeria. Suas obras em geral envolvem discussões políticas e levantam questionamentos sobre a cidade em que vivemos.

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Maria Julia Minervino e Lisani Albertini. INFUSÃO, 2011 – Performatus#1. Happening e video performance,

Maria Julia Minervino e Lisani Albertini (Coletivo Contratempo) – evento Performatus#1, 2011 São Paulo. Neste evento é pensado o corpo como sujeito e objeto na arte. A ação repensa o lugar do corpo no espaço urbano. Em Infusão há um agradável encontro cotidiano, momento cada vez mais raro nas grandes cidade. Explora a oposição entre a velocidade e a solidão da vida nas grandes metrópoles. O happening desloca uma ação cotidiana, o ato de tomar um chá, para um espaço inabitado, o centro de uma rotatória.

// No arquivo do meu TCC final ainda disponibilizo reflexões sobre a obra da artista Marion Velasco, Anna Halprin e VALIE EXPORT.

 

//  LEITURA DA OBRA de 01 artista escolhido:

 

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Jorge Soledar. Projeto Arquitetônico Particular, 2005. Fotografia

(*texto cópia do meu TCC, página 34-35) :

O artista brasileiro Jorge Soledar, residente no Rio de Janeiro, desenvolve o seu trabalho a partir das linguagens do corpo e sua obra se molda a partir da relação com outros elementos e com o espaço. Resultando em ações, instalações e fotografias, sua investigação abarca as questões de imobilidade física, afetiva e social do sujeito como potência de trabalho. Bem como considera as situações do corpo em relação à presença do outro.

É um artista que se interessa em “estabelecer diálogos e tensões com o mundo do lado de fora dos cubos brancos” (SOLEDAR, 2014, p. 30) buscando assumir o caráter experimental de sua produção. Na série Arquiteturas Pessoais, por exemplo, o artista trata cada pessoa como diferente uma da outra, contrariando, assim, a homogeneidade da galerias e, focando na diferença entre as pessoas sem que elas mesmas se importem.

Na obra aqui estudada, Projeto Arquitetônico Particular (2005), Jorge Soledar insere-se como medida ou proporção e protagoniza a forte conexão com a arquitetura levantando questionamentos a respeito das relações entre seu corpo, o espaço e os objetos. Exatamente no criar é que ele atualiza as possibilidades e traz outro olhar para o existente tratando este novo como um projeto. O espaço é aquele de atuação cotidiano do próprio artista e, os objetos, aqueles com os quais convive como a poltrona, a mesa e os cavaletes. O artista performer atua valorizando a presença e suas particularidades pensando determinadas medidas – viés que faz parte de uma série de seus trabalhos. O artista integra, desta forma, o contexto construído. Seria usual esperar que, diante de um objeto com determinada função, o sujeito se posicionasse, neste caso, na frente do cavalete, sentasse sobre o sofá ou se debruçasse sobre a mesa. Porém, a composição gerada com estes elementos, provoca estranhamento uma vez que Soledar os dispõe de maneira incomum eliminando sua função original, pensando-os estruturalmente, lançando outro apelo visual e pensando o lugar de si. Ao estar em contato com qualquer um destes objetos em separado o corpo do artista estabelece suas próprias relações. Aqui temos duas situações: 1. O seu corpo em relação ao conjunto de objetos; 2. Cada objeto está em relação aos demais. Sua obra pode ser comparada ao projeto arquitetônico – algo planejado estrutural, visual e funcionalmente para atingir determinado fim. A pesquisa e os estudos prévios são parte do processo e determinam o formato final da obra.

Observo a relação do artista com a função original de cada um dos objetos usados e suas implicações, por exemplo, a mesa de desenho ou o cavalete. O desenho em si faz parte de um projeto e relaciona-se diretamente com a obra pois cada objeto presente nesta foi anteriormente desenhado e o artista desenhou, então, um novo projeto com cada um destes projetos. É uma constante atualização: a proposta questiona a função de um projeto e de cada parte dentro do mesmo: a poltrona perde sua função de apoiar, amparar o corpo e insere-se na composição visual como elemento de equilíbrio com o corpo. Este se encaixa verticalmente no todo e contrasta com a tensão criada pelos cavaletes. Cria-se a noção de volume, peso e cor da obra. Tem algo sobre inércia e permanência neste projeto que, aparentemente, prevê um determinado equilíbrio para que o sistema funcione. A obra é um novo desenho que envolve as linhas orgânicas do corpo e as linhas retas do objeto, o que, comparado à cidade, lembra a organicidade do corpo presente entre os inúmeros elementos rígidos, retos, volumosos que a compõem. No momento em que o artista cria a sua própria disposição, ele se compara às cenas da urbe as quais se mantêm em constante transformação. Aqui, ao invés, há poder de escolha, de eternizar esta cena ou repeti-la, ou recriá-la, ou permanecer nela já que o cavalete, a mesa ou a poltrona também sugerem que haja movimento diante deles. Jorge Soledar cria uma arquitetura que é sua, na qual se encaixa, que é proporcional ao seu corpo, integrando-a e limitando-se à composição do todo.

 

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// Outros artistas que considero que poderiam ser pesquisados mais adiante:

Stela Barbieri. Projeto Lugares, 2014-2015. Sensações multisensoriais, corpo agindo diretamente na instalação pensando territórios. (arte-educação)

Marcelo Cidade. Em seus trabalhos traz objetos do espaço urbano para a galeria ressignificando-os. Arte e política, pensa também o lugar do corpo na cidade. Questiona os limites entre realidade e ficção e discute registro e memória.

Guto Lacaz. Cria esculturas a partir de objetos do cotidiano. Sua produção transita entre o design gráfico, a criação com objetos do cotidiano e a exploração das possibilidades tecnológicas na arte, sempre tratados com humor e ironia.

 

// Algumas referências bibliográficas:

ALYS, Francis. Zapatos Magnéticos. [Acesso em : 20 abril 2017] http://francisalys.com/zapatos-magneticos/

ALYS, Francis. Site Elefante Pixelado. [Acesso em : 20 abril 2017] http://elefantepixelado.blogspot.com.br/2009/06/francis-alys.html

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. / Tradução Paulo Neves. – 2. ed. – São Paulo: Ed. 34, 2010, 260 p.

Coletivo Contratempo. Infusão. [Acesso em : 20 abril 2017] https://www.youtube.com/watch?v=weh04XdIF5I

MUNARI, Bruno. Design e comunicação visual. São Paulo: Ed. 70, 1978, 374p.

Performatus. [Acesso em : 21 abril 2017] https://performatus.net/mostra/mostra-performatus-1/

SOLEDAR, Jorge. Como me tornei insensível = That‘s how I became insensitive. / Jorge Soledar ; v [tradução/translation Michele Muliterno]. –1. ed. – São Paulo : Prestigio Editorial, 2014.

 

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O capítulo 03 do meu TCC abarca as questões de estágio curricular levantadas com a aplicação do Projeto de Ensino e apresenta a transcriação realizada neste percurso.

// INSTRUÇÕES para TCC no segundo semestre de 2017> Trabalhamos em cima da ideia de “processo de criação” para a transcriação do meu processo poético ao didático:

  1. Escolher 01 elemento do meu trabalho. Escolher 01 ponto de conexão para experimentar com os alunos do Estágio.
  2. Criar 02 ou 03 partes no TCC > proposta + experimento na escola (produção poética + ensino em artes visuais).

// O PROJETO DE ENSINO “Experimentações no Ensino de Artes Visuais a partir das relações corpo – espaço do cotidiano” foi desenvolvido paralelamente à minha produção poética no primeiro semestre de 2017 e foi aplicado aos alunos do Colégio de Aplicação CAp UFRGS durante o segundo semestre de 2017.

Em paralelo ainda desenvolvi o Diário de Estágio, realizando ações artísticas que levaram em consideração a performatividade e transcriação do meu trabalho. O resultado pode ser visualizado em formato de post neste Blog na página “Diário de Estágio”

 

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